Aos que têm aplicado

palavras aos ferimentos.

Que nenhum de nós
entre esses poucos que procuram aroma no bolor dos dicionários
           se esqueça
           sobre as poças da mesa do chopp
no espaço onírico entre a fronha e o travesseiro, no banco do ônibus
repleto de destinos

nos livros em que depositamos nosso diminuto lume
entre as memórias que alçamos, futuras, que nenhum de nós se perca
dessa sofrida ternura a que podem nos conduzir as palavras

Que nenhum de nós em tão menor número na população
pequenos insetos poetas de asas sonadoras e trêmulas
zunindo ao lado dos fartos pratos dos gigantes satisfeitos, do orvalho e do assassinato







Mesmo voando em linha reta
           nenhum de nós deixe de molhar o olhar no mel que purga
das feridas do cotidiano, rajada de enternecimento
           que faz valer a pena a geometria percorrida

Acontecimentos morrem, pasmos, nos anos devorados pelos outros
sucessivos fatos

A poesia
se é que vai junto
deixa em sua sombra, a sonora, a das asas
           um resto de pólen derrubado de suas patas
um bemol na janela

           A criança, uma criança qualquer
Haverá de respirá-la.

***

Regina G. Gulla, 1998

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   Trem de subúrbio

Cada janela que se abre
traz um vaso de louça azul
vela pra Santo Antônio
uma Isildinha na janela

o azul caiado
céu

Casa de beira
da linha
a Central do Brasil
é tua válvula mitral

Regina Gulla, 1999

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PAISAGEM

A tarde sobe quente pelas gravatas
Vitrines
Néons se acendem
  pés em multiplicação...
agendas, vestidos e sanduiches à moda jovem

Hoje faz milênios que o sol arde

no coração dos homens com vergonha
             de arder
         enquanto
        A linha
   do Equador
         costura suínos
          equinos
              humanos
         viperinos
    esquimós
          e sonhos
              em banda de Moebius

Onde se meteu minha sobrinha? pergunta a tia
no elevador, para as caras
de ninguém
   A sobrinha se perdeu nos telefones públicos
   procurando um beijo

        2
Sombras de rendas nos olhos...
    Amanhã faz milênios
       e mais um dia!

Cada elevador do Shopping carrega no máximo
    setecentos e cinquenta kg
de rendas e sombras
        cada vez

Onde andará minha mãe? pergunta o órfão
  por trás da porta

De cada banheiro
          pingam
          gotas
                       de
          gente

Regina Gontardi Gulla, 1999