Mesmo voando em linha reta
nenhum de nós deixe de molhar o olhar no mel que purga
das feridas do cotidiano, rajada de enternecimento
que faz valer a pena a geometria percorrida
Acontecimentos morrem, pasmos, nos anos devorados pelos outros
sucessivos fatos
A poesia
se é que vai junto
deixa em sua sombra, a sonora, a das asas
um resto de pólen derrubado de suas patas
um bemol na janela
A criança, uma criança qualquer
Haverá de respirá-la.
***
Regina G. Gulla, 1998
............................................
Trem de subúrbio
Cada janela que se abre
traz um vaso de louça azul
vela pra Santo Antônio
uma Isildinha na janela
o azul caiado
céu
Casa de beira
da linha
a Central do Brasil
é tua válvula mitral
Regina Gulla, 1999
........................................
#
PAISAGEM
A tarde sobe quente pelas gravatas
Vitrines
Néons se acendem
pés em multiplicação...
agendas, vestidos e sanduiches à moda jovem
Hoje faz milênios que o sol arde
no coração dos homens com vergonha
de arder
enquanto
A linha
do Equador
costura suínos
equinos
humanos
viperinos
esquimós
e sonhos
em banda de Moebius
Onde se meteu minha sobrinha? pergunta a tia
no elevador, para as caras
de ninguém
A sobrinha se perdeu nos telefones públicos
procurando um beijo
2
Sombras de rendas nos olhos...
Amanhã faz milênios
e mais um dia!
Cada elevador do Shopping carrega no máximo
setecentos e cinquenta kg
de rendas e sombras
cada vez
Onde andará minha mãe? pergunta o órfão
por trás da porta
De cada banheiro
pingam
gotas
de
gente
Regina Gontardi Gulla, 1999
|