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O Jornal do Gato de Máscara
Produção das Oficinas de
Criação Literária - Rua Fradique Coutinho, 1884
Vila Madalena -
fone/fax: (011) 3032-7980 e-mail jornal@gato-de-mascara.com.br
Numa escrita apurada e concisa, PNEUMOTÓRAX expressa, sobretudo através dos silêncios, das pausas e do ritmo, uma história, uma vida.
Esse poema de Bandeira foi sugerido como estímulo aos grupos de
trabalho desta Oficina Literária e toda a dimensão velada de
PNEUMOTÓRAX, acabou sendo significada, pelo imaginário de cada autor,
de maneira bastante singular e num leque de textos bastante diverso
quanto à linguagem, ao estilo.
ESCREVA VOCÊ TAMBÉM A PARTIR DE
PNEUMOTÓRAX, ENVIE-nos seu texto, em prosa ou poesia. Será escolhido
para publicação, no próximo número, um texto estimulante.
A 2ª seção traz publicação variada do que se escreve nesta oficina em
encontros semanais bem humoradas onde se exercita a expressão individual e o aprimoramento da linguagem.
Cabe à 3ª seção os informativos sobre acontecimentos literários da
cidade de São Paulo, cursos, palestras, comentários, concursos e outras
novidades.
Consulte sempre o site do Gato de Máscara.
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PNEUMOTÓRAX
Manuel Bandeira
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
...........................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o
[pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
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O menino do pneumotórax
Eeeesse menino! Recebera, ao nascer, o nome prosaico de Manuel e uma
condenação irrecorrível. Mas o homem põe e Deus dispõe, e o menino ficou
esperando a hora final, durante milhares de horas, até a idade
ultrapassada dos oitenta anos. Nada planejou, nada adquiriu, diante da
sentença. Não roubou mamão nem melancia, que comidos às pressas, ainda
quentes pelos solões de sua terra, teriam lhe dado dores de barriga. Não
chupou jaboticabas até ficar entupido, evitando a intervenção de
clisteres, conhecidos por chás-de-bico. Não correu atrás de balões, nem
brincou de pega-pega, nem tomou banhos nos rios. Não pedalou bicicletas,
nem saboreou os deliciosos sorvetes de frutas regionais. E durante toda
a vida não deve ter beijado uma namorada ou dançado um tango argentino.
Olhou, através das vidraças, em espaços assépticos, o mundo colorido e
movimentado passar.
Tornou-se poeta festejado e premiado, viveu rodeado da fina escol dos
literatos. Sonhando com a terra onde era amigo do rei e poderia fazer
tudo aquilo que não fez. Um sonho encantado, mas sabia, não existia
nenhum caminho que o levasse àquela Pasárgada.
Jamais usou palavras graves como escarro ou golfadas de sangue.
Preferia, elegantemente, dispnéia, hemoptise. E ainda brincava com a
feiúra de seus dentões: "Parece que engoli um piano e as teclas ficaram
para fora".
Menino doente, viveu cheio de mezinhas, ervas, chás, querosene, urina
de égua, e outras nojeiras mais. Sempre bem humorado, teria brincado com
o médico, um doutor Janjão (João Julião Tupinambá), fumante inveterado,
que lhe apertaria o peito e as costas, determinando com voz cavernosa
de tabagista:
-Diga 33.
E o menino:
-XXXIII.
-Em algarismos romanos não, moleque tinhoso. Onde está doendo?
-Na baíga, na péina e na cóita.
E os pais teriam se divertido com aquela pantomima médico-paciente.
(Roberto de Aguiar e Silva)
33
Diga 33
Mais uma vez
33
Felicidade se percebe
quanto mais idade
se bebe
quando se engole
a vida
sem olhar a bula.
Renata Lima
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As mãos caíram ao longo do corpo, sobre o leito. Onde estaria Sílvia? Era morena, baixinha, cabeleira até a cintura. Tal qual uma menina, irriquieta, brincalhona, dentes encavalados à mostra.
Sufocado pelo casamento mal sucedido, apaixonou-se pela moça, conseguiu divórcio da esposa... por Sílvia faria qualquer loucura. Entretanto, trancava-se no escritório o dia todo, desprezando as súplicas da dona dos longos cabelos. Nos salões, à noite, as cartas nas mãos. Sílvia buscou outros divertimentos.
Os acontecimentos se passaram tão discretamente que ele nem se dera conta.
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Olhar cansado sobre o papel de parede repleto de flores azuis, resto de perfume no ar, a escova de cabelo na penteadeira... Tomou-se de amores pela mulher.
- E agora, doutor? Não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino
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Yara Moema
El Tango Blue
- Sr. Victor Navarro, primeira classe. Fumante, senhor?
No balcão de check-in, o passageiro ajeita o cachecol de lã grossa, afugenta os fios grisalhos caídos pelo paletó.
Primeiro vôo , Victor na sala de embarque. Um tapete vermelho e flores decoram o ambiente.
Senta-se ao lado de uma senhora de pele alva, coque segurando os cabelos, grandes óculos escuros. Retira da bolsa o pequeno livro "Noções básicas de espanhol".
- Vivaldi.
- Sim?
- Verão, de Vivaldi - a mulher aponta o pianista.
- Ah, sim, a música.
"Passageiros com destino a Buenos Aires, embarquem no portão nove."
- À esquerda, senhor. Boa Viagem!
Nuvens. O passageiro vê a tarde cair na noite. Atenção nas luzes da metrópole que se aproximam.
Buenos Aires, 19:30.
Quarto pequeno, Victor desamarra os nós dos sapatos com esforço, para um breve descanso. Banho rápido e quente. Tosse, inalações. Agasalhos. É preciso chegar bem.
Na recepção, ao atendente:
- Una casa de tango?
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"El Tango Blue"
- Magnífico, magnífico!
Senta-se à mesa mais próxima dos músicos; bem ali, o bandoneón. Pede um, dois, seis uísques.
Final da noite, os garçons arrumam a casa. Victor, os braços estendidos sobre a mesa, cabelos grisalhos misturados ao uísque do copo caído.
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- Señor? Despierta!
Victor dança um tango. É jovem, vívido e alegre. Seu corpo esguio tem a pulsão dos grandes bailadores, os pés contornam pernas femininas... Está nos braços de bela dançarina.
Mariana Dorin
Quantas vezes a morte
Pulmão infiltrado
Febre
Anjos, flautas
Ainda não
O tango argentino...
Tua hora,
Último verso
Três de outubro
fim do milagre.
Rita Canto
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Sala de espera
Papai está lá no consultório faz um tempão! Coitado!. A tosse foi ficando cada dia mais forte. Nem conseguimos dormir direito. Mamãe diz para ter paciência, que isso tudo vai passar. Acontece que não passa. Ele nem joga mais bola comigo...
Eu, hein! Nunquinha que ia pedir pra vir no médico. Já pensou, tomar injeção?
Esta sala é cheia de gente esquisita, nem tem criança pra brincar. Mamãe está com uma cara! Pensa que eu não sei que o papai está doente, que vem aqui pra tomar remédio.
Ela sempre compra um cachorro-quente na saída. Já tou com fome. Cadê o pai?
Ele já vem, ele já vem...mas não vem.
Que demora... só pra falar 33? Já deu pra falar mais de trinta mil...
Ufa! Até que enfim...
Mamãe corre para ele. Papai está chorando. O chato do médico, nem pra dar um pirulitinho! Eu é que não quero nunca passar nesse médico. Eu tenho cinco balinhas de goma. Ainda bem.
- É possível fazer o pneumotórax?
- Não é aconselhável, querida.
- E agora?
- Só me resta tocar um tango argentino...
Ué... Tango argentino? E o meu cachorro-quente?
Depois de comer, quero logo procurar esse tal de tango para o papai.
Jamile Palacce
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Mano a mano
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No longe da rua, Manoel.
Primeiro aparecem os óculos, lentes reluzentes, dois espessos firmamentos onde se sustentam meninos, burrinhos, estetoscópios, insônia, pau-de-sebo, mulheres...
Depois vem o rosto de lábios grossos, seguido do terno claro, alinhado.
Por ali estão todos dormindo. Estão todos deitados, dormindo, profundamente...
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Helena? Eleonora? Da janela, a moça toma brisa e devolve à rua perfume de sabonete. Tem olhos muito mais velhos que o resto do corpo. Rosa? Maria? Antônia? A moça. Ela é a coisa mais bonita que ele vira até hoje. Mais que o porquinho-da índia que lhe deram quando tinha seis anos. Ele se ajeita no terno, esconde a tosse no lenço. A moça.
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-Entre, você não precisa pedir licença, homem de Deus!
Um tango na vitrola. Manoel esconde contar seu desejo. Conta uma coisa mais ardente, como um soluço sem lágrimas.
Estão todos dormindo. Profundamente...
No lenço, sangue e baton amasiados terminam a noite. E lá, bem no final, a estrela da manhã, nua.
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Regina Gulla
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Palavras para tocar o mal
Acordei um pouco melhor. Coragem para sair da cama e entrar no chuveiro... depois de uma semana nos cobertores! Minha mulher diz que sou dramático. Apenas sinto dor e qualquer esforço me faz tossir, expulsar o peito pela boca. Para mim, a tuberculose deixou de ser um bicho de sete cabeças. Convivemos em paz, em sutil acordo: eu não a mato, e ela me deixa viver.
Minha mulher fica louca quando falo assim da doença. Calma aí, querida, é assim mesmo, mas nada vai derrubar tão cedo este seu velho. Chora não, vem aqui. Acomodo sua frágil cabeça no meu peito, minhas mãos pesadas e duras. Pai que às vezes sou para ela, acaricio seus cabelos até que me abrace e me chame de bobo e me peça para deixar de assustá-la.
Ela não pronuncia a palavra "tuberculose". Superstição? Quando perguntam: afinal, o que tem o seu marido? nem assim ela se atreve. Esquiva-se, como se o nome contivesse o mal.
Não, filha, o mal não está na palavra. Fosse assim, seria fácil. Ficaríamos aqui, dizendo palavras bonitas, saúde, borboletas, felicidade e logo meu pulmão estaria novinho em folha. Palavra para ela é espelho: crê que esses duplos de nós têm o poder de aprisionar as almas. É minha teoria a seu respeito. Responde que é besteira, que não tem nada a ver com espíritos ou espelhos. Sai andando para fazer qualquer coisa pela casa...
Annita Costa Malufe
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Vai-se o poeta!
A morte
tantas vezes
imaginada
ensaiada
tantas vezes
A vida se esvai
a poesia resiste
respira
e permanece.
Adélia Baptista
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- Psiu - sussurra suando,
Sai, busca o médico
- É cedo, ainda são seis horas
- Sufoco assim, sem socorro...
- Pois sonha com uma sonata, até o sol aparecer...
Aida Srur
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Suores, calores,
calafrios,
sendas de novos desafios
Sabe-se sendo
a vida, por um fio.
Mônica Rosales
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