Olá, internautas, estou trazendo o poeta paulista Carlos Felipe Moisés para uma conversa. Em seguida, na tela, dois de seu poemas, que fazem a gente querer ler poesia todo dia. Senhoras e senhores: o autor!

  • Carlos Felipe, conta para a gente o que é a poesia na sua vida.

A poesia faz parte integrante, indissolúvel, da vida que eu tenho vivido. Para mim, nada a substitui e eu não saberia prescindir dela. Graças à poesia, as coisas (todas as coisas, sobretudo as que eu tenderia a julgar familiares) continuam a me surpreender, a me espantar. Desse espanto, aliás, às vezes brota um poema. Sem a poesia, a vida seria só rotina, inércia, gestos mecanizados.

  • Um de seus livros afirma, a partir do título, que "Poesia não é difícil". Pode comentar?







Esse não é um livro de poesia nem se dirige ao leitor poeta, isto é, não é para o poeta que eu afirmo poesia não é difícil.
O livro se destina ao leitor-leitor e sugere que a tarefa de ler e entender poesia, esta sim, não é difícil. É só pôr de lado o mito segunto o qual poesia é verdade revelada à qual só os iluminados teriam acesso.
O livro pretende mostrar que poesia é só um modo peculiar de ver e sentir as coisas, expresso em palavras.
Para chegar a ela, basta prestar atenção, dedicar-lhe algum esforço concentrado (sensibilidade e racioncínio unidos), um pouco de disciplina, e sobretudo jamais perder de vista o prazer que isso pode proporcionar.

  • Acredita que a evolução da língua tem relação com o exercício da linguagem poética?

Acho que nem é o caso de acreditar, é só constatar. A língua evolui, incessantemente, e o poeta que não esteja atento a isso corre o risco de congelar a sua linguagem em algum registro irreal, fora do espaço e do tempo. A razão é simples: a linguagem do poeta utiliza os mesmos recursos da língua comum, são vasos comunicantes. Às vezes, o poeta inventa algumas palavras, o que é bom, desde que não seja exercício gratuito; mas parece que não pode inventar tudo, pois criaria outra língua e ficaria sem leitores. Por outro lado, o poeta não deve subordinar-se inteiramente à língua. Mallarmé disse-o de modo exemplar: a função do poeta é dar um sentido mais puro às palavras da tribo.

  • Você acha que a poesia sobrevive a esses tempos de racionalização tão exacerbada?

Esta pergunta me lembra outra, porposta por Heidegger (que todos líamos muito, nos idos de 60): Por que poetas em tempo de penúria?. O filósofo alemão afirma que é justamente em tempos assim que o poeta é estimulado a intervir, a criar com vigor redobrado. É o que nos salvará da penúria. Fernando Pessoa segue caminho semelhante, na sua famosa profecia do supra-Camões: exatamente por estar em franca decadência, dizia o jovem Pessoa, Portugal verá surgir, em breve (isto foi em 1913), o seu poeta máximo, superior a Camões. Acho que a poesia não tem nada a temer da racionalização, ainda que exacerbada. Razão e poesia caminham de mãos dadas, desde sempre. Mas se por trás disso detectarmos a entronização do utilitarismo, do consumismo, do imediatismo, da leviandade, aí sim estaremos diante de penúria ou decadência. Então será preciso recorrer à visão otimista de Heidegger, de Pessoa e tantos outros: ao contrário do que possa parecer, é só um motivo a mais para que a poesia sobreviva. E nos ajude a sobreviver.

  • Qual a sua opinião sobre uma oficina literária que não pertença à universidade?

Vargas Llosa disse uma vez, numa palestra, que a universidade é o túmulo da literatura. Se ele estiver certo (e em larga medida penso que está), devemos inferir que o lugar adequado para uma oficina literária, isto é, literatura ao vivo, não é realmente a universidade. Na universidade, ou na escola, em geral, a oficina tende a se confundir com curso, subordinando-se a técnicas pedagógicas, currículo, avaliação, programação meticulosa, tarefas mecanizadas -- burocratização, em suma. Isso é mau; a meu ver, isso é a negação da oficina. Por isso, acho que as oficinas literárias, entre nós, estão bem, aí onde estão: fora da universidade. Mas (Vargas Llosa, claro, exagerou um pouco), caso abra mão dos seus formatos estereotipados, a universidade pode acolher oficinas literárias, com grande proveito para ambos os lados, o do ensino e o da criação.

Aqui estão dois poemas de autoria de Carlos Felipe, retirados do livro Lição de Casa, ed. Nanquim, 1998:

LAGARTIXA
para Margarida

O peito é de vidro.
Os olhos, porcelana
delicada e astuta.
Da língua
escorre
o néctar sutil.
As patas são de estanho,
mas sabem se mover
imóveis: mal flutuam.

O ventre é quase nada,
pura transparência
onde se escondem
o dorso e seus andaimes.
Não tem entranhas.
A pele
de tão fina
já não é:
limita
semovente
o nada de fora
e o quase nada
de dentro.

O peito é de vidro
mas às vezes se desmancha
em pétalas.
Dentro
pulsa um coração
que imobiliza tudo em torno.

O rabo, sim,
é feito de algo
insuspeitado:
nuvem
algas
milhares de roldanas
e desejos
enrodilhados na engrenagem
que espaneja o chão
e foge para
o céu aberto.

UNICÓRNIO

De ordinário, manso,
mas imprevisível.
Alimenta-se de moscas,
Folhas tenras, lembranças.
Desperta com o dia
e soletra, um a um,
os nomes bem amados.
A memória,
Um prodígio espessa
como a aspa solitária
com que raspa as trevas
e afugenta a escuridão.
Nada teme,
salvo um dia acordar
depois da aurora.
(Quem lhe cobrirá de sonho
o morto coração?)

  • Vamos saber um pouco da história desse poeta?

Ele nasceu na cidade de São Paulo, em 1942. Como o desejo de trabalhar lhe acometeu aos 15 anos de idade, iniciou o convívio com os bons escritores brasileiros logo cedo, ao se empregar na Livraria-Editora Francisco Alves. No começo dos anos 60, com A poliflauta, pela Massao Ono ed., já publicava poesia e logo se dedicou à crítica literária com A multiplicação do real. Ensaios. Formado em Letras pela USP, deu aulas de literatura em universidades, por vários anos, tanto no Brasil quanto nos EUA. Diz que ensinar é um mero disfarce para aprender.Vive nesta capital com a sua mulher, Margarida e a filha Manuela. Seu filho Luís Felipe, que adorava desenhar, faleceu em 1998 com 18 anos.

  • O que mais ler do Carlos Felipe, em poesia?

  • Signo e aparição, 1961, Massao Ono ed.
  • A tarde e o tempo, 1964, Prêmio-estímulo Governador do Estado de S. Paulo
  • Carta de Marear,1966, ed. do A., Prêmio Governador do Estado de S. Paulo
  • Poemas reunidos,1974, prêmio Assoc. Paulista dos Cíticos de Arte
  • Círculo imperfeito, 1978. Fund. Cult. do Estado da Bahia. Prêmio
  • Gregório de Mattos
  • Subsolo, 1989, Ed. Massao Ono. Prêmio Ass. Paulista dos Críticos de Arte
  • Lição de casa, ed. Nankin, S. Paulo,1998

A ampla participação em antolologias brasileiras, européias e norte americanas, mostra o alcance de sua interação com os poetas e intelectuais de seu tempo.

Obras infanto-juvenis, entre outras: O livro da fortuna, ed FTD, 1993; a novela A deusa da minha rua, ed. Saraiva, 1996; Poeta aprendiz, poesia, ed. Lazuli/Bibla, 1997.

Faz crítica literária para os grandes jornais do país e revistas literárias, mas aqui vamos destacar um pouco de sua obra crítica em livros:

  • Poesia e realidade. Ensaios. Ed. Cultrix, 1977
  • O poema e as máscaras. Microestrutura e Macroestrutura na poesia de
  • Fernando Pessoa. Ensaio. Coimbra, Almedina, 1981.
  • Poética da rebeldia.A trajetória militante de josé Gomes Ferreira.
  • Ensaio. Lisboa,Moraes, 1983.
  • Literatura para quê? Ensaios. Letras Contemporâneas, 1996.
  • Mensagem de Fernando Pessoa. Roteiro de Leitura. Ática, 1996.
  • Poesia não é difícil. Introdução à análise do texto poético. Artes & Ofícios, 1996.
  • Poemas de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa. Roteiro de leitura. Ática, 1998.

A gente sabe que vida de escritor nunca termina, continua nos livros. Bater papo com escritor sobre a sua vida dá vontade de não terminar também. Fazer o quê? Está na hora.

E para terminar a curtição, mais um poema do Carlos Felipe,

CONJUGAÇÃO

Eu me arquipélago
tu te maravilhas
ele se istma
nós nos montanhamos
vós vos espraiais
eles se eclipsam

Maravilhou?
Não se eclipse, escreva aos montes, istme, espraie por aí os poemas
entre seus amigos.